Papuda, Louvores e Um Belo Testemunho

PAPUDAHoje foi dia de visita, aluguei as minhas roupas brancas na portaria e entrei na fila. Foi bem tranquilo, menos constrangedor do que eu imaginava. Nada demais. Assim como lá dentro. As cenas de filmes com “Carandiru” e muitos outros não descrevem o que eu vi. Ao entrar no pavilhão encontrei um clima amistoso, muitas pessoas conversando e ninguém com cara de mal. Acredito que o dia da visita é o mais aguardado de todos, por isso a alegria aparente. Muitas pessoas vestidas de branco conversavam no pátio sob um sol agradável de uma manhã de quarta-feira.

De longe vi a pequena igrejinha sem paredes onde muitos irmãos recebiam as suas visitas. Lá dentro encontrei o meu amigo. Quem me convidou. Com lágrimas nos olhos se alegrou em me ver. Visita para eles valem ouro, muitos não têm, por isso aqueles que recebem aproveitam ao máximo.

Fui agradecer aquele que tinha cedido o seu direito de visita, ele a muito tempo não recebe ninguém. Seu nome é Hugo Leonardo, homem simples que ao me ver abriu um sorriso e me abraçou.

Conheci o pastor que tomava conta do local e com muita alegria fui recebido. Ele disse que em breve estaria em liberdade e teria vários projetos para acolher pessoas após o cumprimento da pena e sem capacidade de se restabelecer na sociedade. Ele queria compartilhar os seus projetos à espera de encontrar ajuda. Gosto de pessoas com planos e muita esperança, demonstra que tem fé. Confirmou comigo se poderia dar uma palavra naquela tarde: Claro que sim! Era uma igreja muito simples, com cadeiras de plástico quebradas, um som ruinzinho, muitas oportunidades e um grupo de pessoas que muita fé em Cristo. Lágrimas e mais lágrimas em uma reunião simples e cheia de Deus. Realmente foi tocante.

Quem mais me chamou a atenção foi o Hugo, parecia uma pessoa muito serena e compassiva. Por que estaria lá? De relance me informaram que ele já tinha gravado um CD e tocado para mais de cinco mil pessoas, uma das suas músicas foi muito executada nas rádios. Já tinha uma trajetória longa de ministério.

No final da reunião fui cumprimenta-lo e saber um pouco mais da sua história. Ele já estava lá a mais ou menos onze anos, entrou após ter assassinado um policial! Certo dia no pátio um pastor visitante o viu fumando maconha quieto em um canto. Ao se aproximar disse que ele tinha um dom de ministrar louvores e o convidou para tocar naquela tarde. Meio constrangido acreditava que ninguém o deixaria entrar e muito menos cantar na igreja. O pastor insistiu até que aceitou. Nesse momento iniciou o seu ministério. Sem muito estudo e conhecimento, Deus derramou sobre ele o dom de compor e assim, com afinco, se dedicou a escrever louvores ao Senhor. De uma maneira sobrenatural o seu ministério foi crescendo e ganhando vários prêmios na cadeia e todos os festivais que participava. Uma igreja viu o seu sucesso e se apressou em gravar um CD e o lançar como ministro de louvor. Iniciando o seu semiaberto parecia ser uma grande oportunidade de dar uma guinada em sua vida!

Mas nem tudo foram flores, após um desentendimento com uma pessoa da sua igreja, largou tudo que tinha conseguido e se entregou ao mundo. Sua carreira meteórica chegava ao fim! O crack não perdoou o seu deslize e após ser um receptor de um carro roubado, voltou ao começo, o presidio! O sonho acabou se tornando uma grande frustração.

Após a sua queda, se reergueu e firmou novamente em Cristo. O mal não o destruir. Está mais forte e maduro a cada dia. Hoje se dedica a ministrar louvores a Deus lá no pátio da Papuda. Daqui a quatro meses disse que será liberto. Com mais consciência do que antes, pretende se dedicar a projetos sociais e a uma igreja local.

Uma experiência maravilhosa estar com os irmãos dentro do presídio e cultuar a Deus naquele lugar. Viver a fé deles e ao mesmo tempo transmitir fé. A esperança vive em meio a desesperança. Cristo se faz presente nesse lugar.

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Moisés Nogueira de Faria
Escritor e Blogueiro

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