Aquela Honra Devida…

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Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. Romanos 13:7

A definição de HONRAR é: valorizar, ser grato, reconhecer, proteger, cuidar ou homenagear. Honrar tem a ver com respeitar, que possui, na sua origem do latim, um significado de: olhar para trás. Para quem se relaciona com alguém de princípios e alta confiança, a honra se torna imprescindível. Honrar é valorizar o outro, considerando não somente uma ocasião, mas lembrando da história em comum e todo o tempo que passaram juntos.

Um relacionamento consistente não pode ser julgado somente pela ocasião atual, mas deve-se considerar toda a trajetória do relacionamento; o passado precisa ser honrado, e os momentos marcantes, valorizados. É necessário ser grato pelas ajudas recebidas e reconhecer o esforço do outro. Se duas pessoas caminharam juntas por certo tempo, cada uma acrescentou algo à outra; é impossível duas pessoas conviverem, pelo menos em uma fase da vida, sem terem um vínculo e sem uma ter algo a ser valorizado e reconhecido uma pela outra. Se esses elos não são honrados e respeitados no convívio, se são esquecidos nos momentos de crise, o relacionamento perde a sua consistência, acrescentando a dúvida do caráter do outro. Um relacionamento consistente inicia-se com confiança e pode ter, durante o percurso, atos de confiança, mas, se a confiança não é honrada a todo tempo, é gerada a desconfiança e descrença.

Honrar é celebrar o outro, é demonstrar que todas as atitudes dele são valorizadas e que se tem apreço por isso.

Deus sempre dá o primeiro passo, mas o segundo é o da pessoa. Tudo que é feito por Deus lhe dá o crédito de honra e respeito.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3:16

Quando Deus decide se relacionar com uma pessoa, ela não tem o que oferecer e nem consegue pagar a sua própria dívida ativa. Apesar disso, Ele passa por cima de toda inimizade e investe em um relacionamento duradouro, fazendo tudo que é possível e impossível para manter-se junto e presente.

Em um mundo em que se valoriza o discurso do “olho por olho e dente por dente”, Deus não exige o pagamento na quantia certa, mas declara paga toda conta simplesmente se o devedor se arrepender de seus erros. Independente da dívida, ela pode ser paga com um arrependimento verdadeiro, então será esquecida.

De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Miquéias 7:19

O arrependimento é a chave do “se relacionar” com Deus. Após o arrependimento, ou a cada arrependimento, pois são várias áreas da vida em que ocorrem comumente, os pecados existentes são esquecidos, são lançados no mar do esquecimento.

Durante toda a trajetória, Deus investe nesse relacionamento e facilita a aproximação, presenteando cada atitude certa e honrando a busca da pessoa de seu Pai Celestial.

Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam. Hebreus 11:6

Mas, se a pessoa não honra esse relacionamento, desperdiçando os investimentos relacionais do Senhor e todo o seu esforço de aproximação, não busca o arrependimento de seus pecados, ela se torna uma interesseira, e não um verdadeiro amigo. O esforço de Deus deve ser correspondido com nossa honra, se não magoa Aquele que fez tudo para se aproximar.

Minha esposa sempre ensinou que o princípio de um casamento é “fazer o outro feliz”. Aquele que casa para ser feliz é um egoísta, e não visa à união. O matrimônio objetiva em um fazer o outro feliz; quando isso acontece, a felicidade acaba sendo mútua e compartilhada. Se uma pessoa se preocupa em fazer o outro feliz, ela honra o casamento e também a outra pessoa. Mas, se a honra vem somente de uma parte, se somente ela está preocupada em fazer a felicidade do outro, esse relacionamento se torna cansativo e enfadonho, e logo pode ser substituído por “eu faço se o outro fizer”. O que começou sendo “eu faço e o outro faz” se transforma em um sistema de retribuição, sendo preciso receber para depois dar. Veja bem, em um casamento saudável, não é necessário o marido fazer algo para que a esposa o trate bem e tão pouco a esposa fazer algo para que o marido a retribua com compreensão; os dois se ajudam mutuamente e fazem atos de amor e companheirismo, investindo na união e honrando um ao outro. Existe honra de ambos os lados por meio de valorização mútua e consentida da própria pessoa em si. Quando existe honra, também há cuidado e proteção: o marido provê às necessidades da esposa e do lar, e a esposa proporciona uma casa agradável e pacificadora. Um honrando e sendo honrado, dando honra a quem tem honra. É semelhante aos dois terem um jardim em comum e ambos semearem e cuidarem, esperando que as sementes de ambos frutifiquem e gerem um jardim cada vez melhor e mais bonito, ou seja, um relacionamento com bons frutos em que ambos colherão.

No sermão da montanha, Jesus fala de cinco maneiras das pessoas semearem no seu relacionamento com Deus; isso será explicado nos próximos capítulos.

Ao se relacionar com Deus, Ele dá o primeiro passo e reconhece cada ato de obediência do ser humano para com ele. Ele reconhece o esforço, então semeia cada vez mais, não esperando a perfeição do ser humano; são atitude e empenho que gerarão honra a Deus. Deus semeia no relacionamento e espera que as pessoas honrem o relacionamento, semeando também. Não é um sistema de dar e receber, mas ambos investem em um relacionamento verdadeiro baseado em fé e confiança de que cada um honrará o outro.

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Um dia Deus convocou um homem chamado Moisés para liderar uma nação rumo à liberdade; um povo escravizado seria levado à terra prometida, o local que um dia fora prometido a Abraão, o pai dos Hebreus. Esse povo era dominado e subjugado, no entanto orava constantemente para que essa situação tivesse um fim. Moisés surgiu então na história como um redentor, alguém que se preocupava realmente com aquele povo e que os guiaria à liberdade. Após uma série de milagres e feitos extraordinários, Moisés liderou o povo, saindo do Egito e da opressão de Faraó rumo à uma trajetória pelo deserto, rumo à terra prometida.

Moisés viveu um grande relacionamento com Deus, falava face a face com Ele, nutria um relacionamento de intimidade e conversas diárias com o Senhor. Existia um respeito mútuo entre ambos; Deus se importava com a opinião de Moisés e não aceitava que ninguém falasse mal do seu amigo. Mas esse relacionamento não fora projetado somente para Moisés: Deus almejou relacionar-se com todo o seu povo; preparou então um dia para que todos pudessem subir ao monte santo e, junto com o seu líder, vivessem uma experiência com o Senhor, ouvindo a sua voz e sentindo a sua presença. Deus queria se relacionar com o seu povo e tinha algo preparado para eles. Pediu que eles passassem o dia a se santificarem, pois, no outro dia, iriam subir ao monte e se aproximar de Deus. Mas o que aconteceu no outro dia assustou a todos: Deus se apresentou com o seu poder, através de uma nuvem escura e densa com raios e trovões; o povo temeu e decidiu então que somente Moisés subiria ao monte para conversar com Deus. Ele, o Pai, queria que todos subissem para conhecê-Lo, preparou algo especial para eles, mas não tiveram coragem; é como se Deus tivesse preparado uma grande festa, e os convidados não comparecessem ao preparado evento.

Disse o Senhor a Moisés: “Virei a você numa densa nuvem, a fim de que o povo, ouvindo-me falar-lhe, passe a confiar sempre em você”. Então Moisés relatou ao Senhor o que o povo lhe dissera. Êxodo 19:9

 

e disseram a Moisés: “Fala tu mesmo conosco, e ouviremos. Mas que Deus não fale conosco, para que não morramos”. Êxodo 20:19

Moisés subiu no monte sozinho e, por quarenta dias, se manteve na presença de Deus, recebendo assim os Seus mandamentos. Foram quarenta dias recebendo diretamente de Deus, em uma experiência inesquecível. Depois de um longo tempo sem que Moisés descesse, o povo imaginou que ele tivesse morrido, então fizeram uma estátua de um bezerro de ouro que seria uma representação do deus que os tirara do Egito, e o adoram. Eles fizeram um ídolo para reverenciarem, e isso enfureceu a Deus, porque Ele investira muito nessa comunhão, semeara no relacionamento deles com vários milagres e sinais, salvando o povo da escravidão do Egito, e naquele momento eles preferiram trocá-Lo por um ídolo repugnante, ofendendo e desonrando assim ao Senhor. Depois dessa grande decepção, Moisés renovou a aliança deles com Deus, e, na presença de todo povo, estabeleceram um pacto de seguirem juntos as novas leis. Então a nação passou a ter um Senhor a quem se comprometera de obedecer às ordens e decretos e que os guiaria e amaria para sempre. O relacionamento não seria tão perto quanto o idealizado por Deus, mas Ele seria o Deus desse povo, e eles seriam a nação escolhida para obedecer e seguir ao Senhor.

Eu os farei meu povo e serei o Deus de vocês. Então vocês saberão que eu sou o Senhor, o Deus de vocês, que os livra do trabalho imposto pelos egípcios. Êxodo 6:7

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Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Essas são as palavras que você dirá aos israelitas. Êxodo 19:5-6

O relacionamento entre o povo hebreu e Deus foi abalado por várias traições e arrependimentos: eles se afastavam e pecavam, e outras nações viam e os atacavam, então eles clamavam a Deus e Ele os ajudava. Por milhares de anos foi truculenta a convivência, desde a travessia no deserto, até a chegada à terra prometida e sua história nesse local. Uma história aliás com muitos altos e baixos: o povo de Deus, embora experimentasse constantemente de seu amor, não conservava a honra que era devida a Deus. Nos momentos de aflição porém, corriam atrás do Senhor.

No Antigo Testamento, no livro do profeta Malaquias, o último livro revelado antes dos quatrocentos anos de silêncio até o surgimento de João Batista, que precedeu Jesus, Deus revela o porquê da necessidade de uma nova aliança: as pessoas não honravam a Deus. Deus fez uma aliança com Moisés, e, desde então, honrou o que lhe fora acordado naquele dia, mas a nação não procurou obedecê-lo. Ele fala no livro de Malaquias do seu amor e honra para com seu povo e de como não foi correspondido.

“Eu sempre os amei”, diz o Senhor. Mas vocês perguntam: “De que maneira nos amaste?”. “Não era Esaú irmão de Jacó?”, declara o Senhor. “Todavia eu amei Jacó”… Malaquias 1:2

Deus amou e honrou, mas não obteve honra e obediência por isso.

“O filho honra seu pai, e o servo o seu senhor. Se eu sou pai, onde está a honra que me é devida? Se eu sou senhor, onde está o temor que me devem?”, pergunta o Senhor dos Exércitos a vocês, sacerdotes. São vocês que desprezam o meu nome! Mas vocês perguntam: “De que maneira temos desprezado o teu nome?” Malaquias 1:6

Depois de milhares de anos, Deus ainda honra a aliança feita com Moisés, mas o povo não. No livro de Malaquias, é registrada a gota d’água da desonra a Deus: chegando ao limite da ofensa, o povo fez coisas que O desagradou e ofendeu profundamente. O povo O tratou inferiormente às autoridades da Terra e não demonstrou respeito e obediência ao Todo Poderoso criador dos céus e da terra, que os amou e investiu em um relacionamento até o limite.

Na aliança com Moisés, foi colocada como regra de arrependimento e reconciliação a oferta de animais em sacrifício pelos pecados cometidos, ou seja, alguém comete um erro contra a lei e deve se arrepender, trazendo um animal sem defeito do seu rebanho para ofertar a Deus. A oferta funcionava como um prejuízo financeiro que a pessoa dava como sinal de arrependimento e investimento na relação com Deus; a definição era: Eu vou me prejudicar para manter esse relacionamento. Veja bem, se o marido quer agradar a esposa, por exemplo, ele deixa de frequentar um local que gosta para fazer uma programação com ela; pode também comprar algo para presenteá-la, e com isso faz um investimento em sua relação, ele semeia algo bom. Mas o povo hebreu decidiu trazer animais defeituosos e roubados como sacrifício de arrependimento; o acordo deveria ser animais sem defeitos do seu próprio rebanho, algo a que a pessoa teria apreço, todavia alguns escolhiam animais doentes que não valiam muito e ofertavam, e ainda outros compravam a sua oferta no templo nas mãos de ladrões que salteavam rebanhos no deserto. Sendo assim, que seria um sinal de arrependimento e de investimento na relação com Deus, tornou-se uma afronta. É como dar a uma esposa uma caixa de sapato, sem nada dentro, como sinal de seu amor.

Disse-lhes: “Está escrito: ‘A minha casa será casa de oração’; mas vocês fizeram dela ‘um covil de ladrões’”.  Lucas 19:46

“Na hora de trazerem animais cegos para sacrificar, vocês não veem mal algum. Na hora de trazerem animais aleijados e doentes como oferta, também não veem mal algum. Tentem oferecê-los de presente ao governador! Será que ele se agradará de vocês? Será que os atenderá?”, pergunta o Senhor dos Exércitos. Malaquias 1:8

O relacionamento estava abalado, somente um lado semeava e o outro demonstrava desinteresse em querer agradar. Mas o problema não se resumia a isso; Deus acusava o povo inclusive de roubo.

“Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos? ’ Nos dízimos e nas ofertas. Malaquias 3:8

O povo deveria trazer o dízimo e a oferta à casa do Senhor, mas não o fazia ou fazia parcialmente, com o intuito de roubar o que seria a parte de Deus. O dízimo é o reconhecimento que o sustento vem de Deus, é a devolução do que pertence ao Senhor. O que Deus fez para trazer sustento ao povo não estava sendo honrado. Ninguém reconhecia o esforço de Deus para cuidar da nação.

Além de desonrar e roubar, no livro de Malaquias, Deus diz que as palavras deles eram duras demais para com Ele, eles O ofendiam constantemente.

“Vocês têm dito palavras duras contra mim”, diz o Senhor.  Ainda assim perguntam: “O que temos falado contra ti?” Vocês dizem: “É inútil servir a Deus. O que ganhamos quando obedecemos aos seus preceitos e andamos lamentando diante do Senhor dos Exércitos?” Malaquias 3:13-14

As conversas do povo incomodavam a Deus, pois questionavam a sua aliança e diziam que era inútil servir a Ele; quem falava essas palavras não eram os estrangeiros, mas a nação santa e amada por Deus. A nação escolhida dizia a quem quisesse ouvir que era inútil servir a Deus.

Deus não foi honrado em seu relacionamento, mas foi traído, roubado, difamado e caluniado; o outro lado do relacionamento não demonstrava respeito e honra ao esforço do Senhor e a todo o seu investimento. Deus amava aquele povo, mas o povo não O honrava, e o seu sentimento não era correspondido. Mas felizmente Ele notou que, no meio deles, existiam alguns que eram diferentes, que falavam bem dEle, respeitando-o e obedecendo as suas leis. Então Deus decidiu manter o relacionamento com essas pessoas, somente com aquelas que o amavam e o respeitavam; não seria mais um relacionamento coletivo, mas um relacionamento pessoal.

Depois aqueles que temiam ao Senhor conversaram uns com os outros, e o Senhor os ouviu com atenção. Foi escrito um livro como memorial na sua presença acerca dos que temiam ao Senhor e honravam o seu nome. “No dia em que eu agir”, diz o Senhor dos Exércitos, “eles serão o meu tesouro pessoal. Eu terei compaixão deles como um pai tem compaixão do filho que lhe obedece”. Malaquias 3:16-17

Trecho do meu livro “Um Relacionamento Mais Consistente com Deus” disponível em loja.maisconsistente.com.br

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Moisés Nogueira de Faria
Escritor e Blogueiro

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