Crônicas do Sol Nascente

O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? (Isaías 58:6-7).

Certo domingo, após ministrar pela manhã em uma igreja para a qual fui convidado, dirigi-me a minha casa. Almocei rapidamente e fui descansar um pouco no quarto. Acordei pelas quinze horas e mirei a televisão.  Queria assistir a alguma coisa para me entreter. Estava passando um programa em que a apresentadora se aventurou em um projeto social que visava entregar sopa quente pela madrugada.

Ela se juntou à dona do projeto e saiam pelas ruas localizando moradores de rua. Levavam a sopa juntamente com um pão e muito carinho. Elas não analisavam que eram as pessoas, simplesmente davam a todos que encontravam. Paravam um tempo para conversar com elas e ouvir suas histórias. A apresentadora foi levada muitas vezes às lagrimas, ao ouvir que cada um tinha uma história de perda e de desastre.

A vida não tinha sido fácil para nenhum deles. Na verdade, a vida não é fácil para ninguém. Eles não tiveram sucesso nos caminhos que escolheram e, independente de terem culpa ou não, chegaram a essa situação estrema sem casa para morar. Ela testemunhou isso e viu que realmente nem se quisessem conseguiriam alguma coisa em sua atual situação. As sensações e emoções que ela viveu de ter a alegria de poder ajudar e de chorar com os que choram é comum a quem se envolve de verdade com a assistência social. Tudo fica diferente quando você está perto das pessoas que precisam e descobre que para muitos o álcool e as drogas são um escape de uma vida desastrosa em que eles se enredaram. Dificilmente eles conseguirão sair sozinhos dessa situação. É difícil de acreditar que Deus não se importe com essas pessoas e que não deseje a mudança. Ora, graça é exatamente isso, a ação de Deus na vida de pessoas provocando mudanças que elas não conseguiriam fazer sozinhas. O Senhor diz que não conseguiríamos mudar sozinhos e interfere em nossas vidas nos dando a possibilidade de crescer e vencer mesmo não sendo dignos de tal feito.

Ele nos santifica para isso. Mas, ao mesmo tempo, ele espera que tenhamos esse mesmo sentimento de misericórdia das outras pessoas, buscando ajudá-las segundo nossas possibilidades. Pelo menos o básico podemos fazer, alimentando o faminto e abrigando quem está ao relento. Deus não está pedindo coisas impossíveis: Ame o próximo, ou seja, quem está perto e visível a você. Não precisa ser o mundo todo, pois ajudar quem está perto é tarefa possível de ser realizada.

Muitas vezes o cristianismo é mal interpretado e se tenta converter em ritos sem propósitos. O jejum é algo de muito valor para Deus, é fonte de atitude de fé, de devoção e de sacrifício, mas viver fazendo jejum e em nenhum momento olhar para a pessoa ao lado e ver os seus problemas demonstra indiferença. O jejum deveria gerar uma pessoa mais sensível espiritualmente, mas se for encarado como um mero ritual, que valor tem isso para a edificação do ser humano? Se não está gerando mudança no indivíduo, será que tem algum valor para Deus? Se a aproximação de Deus, a frequência nas reuniões, as orações e sacrifícios não estão gerando uma pessoa mais solidária com os necessitados, será que está agradando a Deus?

Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. (1 João 4:7-8).

Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão. (1 João 4:20-21).

Crônicas do Sol Nascente